Negros Olhos do Amor

Teus olhos pousados nos meus,
negros como noite escura invadida pelas luzes estelares
prendem-me como por encanto!

Extático, numa morbidez intima, permaneço…

Solitário, penetro a imensidão do universo particular da minha alma

Olhar difuso…
difuso sonho em embriaguez profunda

Momento de contemplação…
Divago!

E se desvia doce olhar,
em vácuo escuro e frio não tardo a estar

Mesmo perdido em abismo isolado, há algo a me acompanhar…
nobre e bela,
companhia salutar que por mim vive a zelar…
é amor que jaz no peito!

O vácuo é superado,
não preciso d’ele escapar,
pois logo é suplantado pelo que de grande existe em coração enamorado

 

Hênio Aragão

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Devoção

Ei…
Eu quero, quero tanto, tanto…
Fazer-te sorrir, ver-te feliz…
Sentir o toque do teu nariz
Ei…

também podes ouvir?
É a voz do destino.
vê?
É o destino que se nos vem anunciar… revelando sua doce beleza, para muitos oculta!
Nele sinto toda a paz que almejo… e ao meu lado, és tu quem segura em minha mão.

Veja, amor…
Dá-me tua mão… toca meu peito
Sente?
É amor… doce
translúcido!

Eu tenho um sonho…
ter você comigo muitas vezes por um instante… assim, exclusivamente minha!
não é necessário exaurir todo o teu tempo apenas comigo…
mas quero quando em um instante que seja, que este instante seja somente meu

sonho com os teus beijos,
com o calor do teu corpo imprimido no meu,
com os teus meigos olhos fitos nos meus…

Devaneios…
tão intensos desejos.
contemplo tua imagem que visita meus pensamentos com constância
e o seu perfume, ah! Sinto-o…
estendo minhas mãos para debalde alcançá-la… é sempre assim, confundo a realidade com a ilusão… é que os sentidos e os predicados da razão cedem à imensa sede sofrida pelo coração e se condicionam a miragens, tamanha é a necessidade que os abala.

Grandioso amor, este que dilata meu peito, desmesurando meu coração em proporções inabarcáveis…

Prazer e dor…

Dor que não chega a ser expiação, distante disso… Mantém-me desperto!
Assim, também é prazer… Satisfaz minha alma lembrando-me que além do que há em derredor, e acima de tudo, existe um bem maior… um tesouro particular incapaz de se extenuar… tesouro só meu!

Somente quem é capaz de amar pode sentir o coração rasgando suas fibras, inflamado de paixão

Vem,
toca meu coração com teu hálito, move minha alma com o fogo renovador do teu beijo,
faz brilhar com teu sorriso o caminho que me leva até você…

E no final dessa jornada, quando eu não mais estiver…
lembra apenas que você foi o meu destino
e que para o além do que se pode ver existe um amor, um grande amor que jamais perecerá… e a minha lembrança em teu coração será a centelha que nos manterá unidos por toda eternidade, como prometi um dia…porque imperecível é o amor escrito pelas penas de um poeta.

Hênio Aragão

A Ti, Mulher

Mulher.. hoje é o seu dia. Dia em que todos os olhares e interesses são voltados à tua enorme importância.

Hoje é o dia em que todos, em um único ato, te homenageamos… pois todos os outros dias também são teus, pelo que representa para a humanidade: tua figura consubstanciada em força, em lealdade, em coragem… em puro amor com intensidade, nas diversas formas em que és capaz de se exprimir… na forma de companheira leal, na expressão de amizade, com toda sua força e fidelidade, e na mais alta expressão de sua condição de mulher: como mãe… em seus braços encontramos o abrigo, a segurança… o mais  terno amor.

Mulher… tu és obra divina, fonte de força e de vida… é a nossa pura certeza de que nunca estaremos perdidos neste eterno caminho de flores e espinhos.

Hênio Aragão

 

” Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave … ”
( Vinícius de Moraes )

Saudade

Hoje mais uma vez
viestes em meus sonhos

E teus olhos, como outrora,
tão belos,
tornaram a enganar-me…
encantei-me novamente!

Vieste tu, terna e adorável
e tirou-me do torpor da saudade…
Teu néctar sorvi delirante e apaixonado…
Quão doces emoções senti!
Enternecida e suave minha alma ficou

e ao acordar
ébrio e só,
chorei!

Hênio Aragão

Em Eterna Lapidação

Orbitando os homens no infinito cosmos do Direito, em busca do Justo, muitas vezes enveredaram na senda da injustiça, pelas várias distorções propagadas pelos eternos sofistas, aqueles que buscaram fazer do Direito uma indelével ferramenta de destruição e de subjugação do homem pelo próprio homem, fundamentando a tirania numa legalidade ilegítima e imoral.

Inobstante os revezes encontrados, cada um, com sua justa pretensão, buscaram conquistar a razão, com o insigne desiderato de fazer da Themis sua fiel companheira. Graças aos grandes homens, e temendo o aniquilamento total, o Direito, de tempos em tempos, de momentos em momentos, em cada caso concreto da vida particular ou das grandes problemáticas internacionais, vem lapidando sua forma. Suas duas faces, o Direito Positivo e o Direito Natural, paulatinamente, e numa perpétua caminhada, vêm buscando a sintonia perfeita.

Metamórfico, peregrinando desde o primeiro momento da história da humanidade, vem o Direito como ferramenta da justiça buscar o real devir, que é fazer brilhar para todos a sua essência primordial. E para “tornar-se o que é”, como diria Nietzsche, é preciso que o homem faça do Direito não uma mera profissão, mas um legado, um ideal incorruptível.

Não é possível, que entenda cada ser social, cada pessoa humana, olvidar a importância do Direito. Aqui vale o brocardo “ubi societas, ib ius” (onde há sociedade, há o Direito), visto que não há segurança, não há família, não há ordem sem que seja sob a égide do Braço da Justiça.

Assim, cheio, repleto de elucubrações, emoções e distorções, inundado de contradições, caminha o Direito, desenvolvendo-se, geração após geração, numa caminhada sem fim, rumo ao horizonte do dever ser da ordem jurídica, que é a paz e o bem estar da humanidade. O Direito caminhará junto aos homens. Estará eivado de seus vícios e virtudes, pois ele reflete tão somente aquilo que aspiramos e o que somos. Na mesma medida em que mudamos nossos costumes, concomitantemente muda-se a ordem jurídica.

Neste mister, nós que enveredamos pela senda da justiça, lutamos para imprimir no seio da humanidade aquilo que entendemos por justo, eternamente buscando alimentar a essência do Direito, ajoelhados aos pés da deusa.

Hênio Aragão

Melodia

Por toda a noite cai a chuva, atravessando a escuridão triste e solitária,
como a banhar a humanidade com as lágrimas serenas dos deuses,
trazendo ao coração do poeta as condições mais perfeitas para a versificação daquilo que deveras sente
e que derrama em torrentes por todos os poros,
em cada ato exalando sua poesia consubstanciada em sentimentos de infinitas nuances…
em cada gesto,
na expressão de um olhar,
na intensidade de um sorriso…
no mais puro desejo de amar

Os pássaros encarcerados ecoam seu canto cativo, como que a reclamar ao poeta:

“−Canta conosco, poeta, o Amor, a Vida, a tua felicidade, as tuas dores.
Toma a tua alma a lira e deixa que o teu coração cante as melodias que te fazem viver…”

Neste comenos, o velho bule ferve sob a intensidade do fogo o café,
este com seu aroma todo inspirador a convidar ao deleite de uma agradável xícara, enquanto a vírgula no verso espera fecundamente.

Ao lápis, neste mesmo diapasão, o coração passa a confidenciar-lhe todo o seu amor, a fim de que descreva com ternura a imagem dos seus devaneios, dos sonhos que o visitam mesmo em vigília.

Em breves instantes é possível nos versos que seja contemplada a imagem que inebria e que encanta o poeta…

Eis que a bela musa se revela.
E seus olhos,
ah! seus olhos,
tão negros e desafiadores…
em seu fito imerge o amante em instantes tão profundos e eterno, quanto suaves e enternecedores…

Embalado pela ótica, assim enfeitiçado, reclama à musa o ósculo sonhado…
E com quão gracioso sorriso, dela antecipado, doce beijo ele sorve.

Transladando-se aos mundos etéreos, lócus da felicidade, o infinito penetra em seu coração…
e o infinito ao coração pertence, porque ilimitado é o amor que verdadeiramente sente.

Ao desenlaçar dos lábios, com ternura a bela se despede e o amante, absorto, fecha os olhos, ali permanecendo, na imensidão da sua alma,
nas profundezas do cosmos criado pela união de seus sonhos,
até o retorno,
ao toque da lótus em seus sentidos, balsamizando a sua vida…

O lápis, eivado de vida, nas linhas derradeiras três pontos ali rasura, na esperança de que o poeta a ele retorne com sua perpétua canção de amor…

Hênio Aragão

Dualismo

 

 

 

 

 

Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.

Olavo Bilac