Das Paixões ao Amor

              E se te perguntassem sobre as paixões? Quais seriam as suas? Enfim, o que seria na realidade “paixão”?

             O sentido que empregamos comumente ao termo nos remete a uma acepção bastante genérica e não nos permite, portanto, que façamos uma descrição do que quer que seja com fidelidade ao sentido etimológico da palavra. Ou seja, não nos leva à sua essência. Primeiro deveríamos definir seu sentido tal como queremos que sejam respondidas nossas indagações.

             Assim, após tempos compenetrado neste mister, passei a compreender as paixões por sentimentos exacerbados que nos condicionam, por vezes cegamente, às conquistas dos nossos objetos de desejo (amor em sentido lato). É, então, no caminho da realização dos nossos desejos em que conquistamos os valores que enriquecem nosso espírito. No final das contas, as paixões nos servem apenas como estímulo para o desiderato de nossa formação como Homens.

              As paixões podem provocar as mais diversas sensações, chegando a nos levar a vivenciar os dois pólos do prazer: grandes tristezas, infelicidades; como também, grandes alegrias e satisfações.

              Por vezes nos perdemos no abismo de sentimentos, os mais diversos que possamos imaginar, desconsolados por não compreendermos a verdadeira finalidade das coisas.

              Assevera Schopenhauer, em sua teoria sobre o amor, que as paixões são um recurso do inconsciente humano para unirem a priori indivíduos da mesma espécie, a fim de garantirem sua sobrevivência. Aí a resposta sobre o porquê de nos apaixonarmos inúmeras vezes durante nossa existência. É claro que Schopenhauer não considerava o homem numa visão transcendente, haja vista relacionar a paixão a algo meramente biológico. Pecava ainda em desconsiderar a natureza diferenciada da criatura humana em aprimorar elementos primitivos e desenvolve-los até um estágio trabalhado e depurado.

              A paixão é comumente confundida com o amor, agora em um sentido delimitado (estritu sensu), triste engano. Porém, a paixão é o primeiro passo para que se possa construir algo belo e duradouro, o que seria o amor. E assim, quando a chama da paixão apagar, se algo de bom tiver sido construído, restará o amor… este, mais nobre, maduro e eterno.

              O amor é potencialmente grandioso, é belo por ser sábio e paciente. Contrário ao convencionalmente entendido, contrário a toda concepção egoística que se possa atribuir a este sentimento, ou estado de espírito, este é O estado de plenitude alcançado pela criatura humana enquanto ser diferenciado das demais obras da natureza, pois amar verdadeiramente outro ser é algo mais do que apaixonar-se, é um passo a mais que se é dado. Numa linguagem simples, a paixão seria a matéria-prima, que bem trabalhada pelo artífice, o homem, tornar-se-ia uma obra de arte… a obra de arte seria o resultado de um trabalho realizado com ardor pelo homem munido com sentimentos de perseverança num ideal de bondade e de nobreza, onde o indivíduo desenvolveria sua alteridade em prol de uma causa bem maior do que a satisfação dos anseios imediatistas, peculiares da paixão. O estágio final a ser vislumbrado, após longo percurso, é o amor.

              Este sentimento impoluto não é volátil, não está sujeito as oscilações inconvenientes das paixões. Numa óptica Platônica, ou Socrática, o amor é algo que se constrói e depois de desenvolvido no espírito humano não mais morreria, porque amar é antes de tudo viver o belo… o puro! É o Bem aludido com maestria por Platão na alegoria da caverna, como também nos diálogos referentes ao amor travados por Sócrates na obra “O Banquete”, também de autoria de Platão.

              Quem ama é sábio, pois atingiu esta “condição” ao atravessar a turbulenta fase da paixão, ou das paixões (latu sensu). É claro, existem casos isolados em que alguns corações não tiveram que passar por todas as fases que nos levam ao patamar ideal de homem, haja vista lograrem precocemente a visão cosmológica da existência e, por isso, vislumbrarem claramente a real finalidade das coisas.

Hênio Aragão

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